Mais um dia difícil.
O despertador tocara e novamente vieram à tona os sentimentos de frustração e cansaço.
A esposa, de pé logo ao primeiro toque, fez o café como de costume, por causa dos remédios. Voltou para dormir. Invejável sono.
A frustração tomava conta, não deixava levantar. Tudo parecia uma dificuldade imensa: os pés pesados e doloridos, vista embaçada e as dores nas articulações.
Precisava sair em busca do sustento diário. No início de cada mês, o tormento de saber que o dinheiro mal daria para pagar o aluguel. Enfim, começara mais um dia que se anunciava podre em sua essência. Rotina.
O café sem açúcar ajudava a espantar o sono, fatias de pão com margarina encerravam o café da manhã. Aos suspiros, arrumou as coisas na mochila, e saiu porta afora absorto em pensamentos diversos.
Durante o caminho até o trabalho, a mente fazia viagens ao mundo dos sonhos. O que podia fazer de diferente para que a vida fizesse um mínimo de sentido? Nada! E, esse era o pensamento recorrente. Nem mesmo uma sombra estava fora do lugar.
Preso a si mesmo, fazia o trajeto sem perceber. Certo dia acordou de um transe e se viu frente ao portão do escritório apertando a campainha – havia feito todo o caminho de maneira inconsciente, o corpo estava ali, mas a alma vagueava e estava longe. Lembrou do zumbi. Como é que os mortos vivos se comportariam na luz do sol? Detalhe besta… Pelos filmes, os malditos só andam de noite. Outra idéia lhe ocorreu – como seria um filme de horror em pleno dia com aquele sangue todo jorrando na claridade… Seria muito sem graça.
Chegar cedo ao local de trabalho tinha suas compensações, e uma delas era não encontrar as pessoas. Não que tivesse fobia delas, mas se sentia melhor assim. A solidão se fazia companheira; enquanto acordado e no trabalho, ajudava-o não fazendo pressões como os seres humanos fazem nos momentos iniciais do dia.
O tempo continuava a correr e os outros foram chegando. Quase hora de iniciar o expediente. A companheira vai embora e cede espaço aos ruídos da normalidade que já ditavam o pique rotineiro de mais uma jornada de trabalho.
Suspiros, a falta de inspiração e mais vazio. Uma frustração crescente. Doía. O que fazer para mudar?
Por àquela hora da manhã, veio uma dor no peito. Seriam gases? Quis arrotar, mas não conseguiu. Nesse instante, sentiu que a mente almejava uma vida que podia ser melhor.
Começava o redemoinho de idéias, e um rolo de filme descortinou-se frente aos seus olhos. Reconheceu na hora a fita de sua vida sem sentido. Nesse flash-back, reviveu todos os momentos em que podia ter decidido uma mudança e não o fez.
Entendeu então que não mais poderia virar as velas da vida rumo a um destino melhor. Era tarde e doía muito. Se arrependimento matasse – pensava. E estava matando mesmo.
Bateu um sono esquisito. Queria manter-se acordado, mas um sussurro estranho lhe murmurou algo sobre a mesa desarrumada e a pilha de papéis que teimava em crescer. Um interminável martírio. Rendeu-se aos argumentos e a rotina.
A sonolência evoluiu e transformou-se numa dor lancinante. Dor que colocava fim na agonia; a caneca com café que segurava, caiu de suas mãos. O líquido negro e quente espalhou-se manchando os papéis confusos sobre a mesa.
Pronto. Chegara o fim.
O corpo debruçado e a correria do pessoal do escritório indicavam que estava morto. Infarto.